6 de junho de 2009

Eleições para o Parlamento Europeu, para a Assembleia da República e para as autárquicas - três juntas podem não ser seis bois (2)

(1. Trinta e cinco anos após...)

2. Três eleições numa?
Três eleições numa? Não, mas suficientemente juntas para se entender que não são três actos independentes, que se articulam uns com os outros, que decidimos, em cada um deles, facetas da nossa vida colectiva que se colocam em diferentes escalas.
Trinta e cinco anos após a instauração da Democracia as escalas continuam a ser apenas três no Continente (país, concelho e freguesia), quando deveriam ser cinco. Ou seja, com a excepção das Regiões Autónomas dos Açores e Madeira, não nos podemos pronunciar, democraticamente, enquanto colectividades regionais. E todavia, com a globalização, as regiões são objectivamente as plataformas de articulação de cada País à economia mundial. A equação dos problemas nacionais, sem a presença destes territórios regionais, é uma equação distorcida, tendencialmente centrada na região da capital, e conduz a más utilizações dos dinheiros públicos, obras públicas sem sentido, más localizações de aeroportos (por exemplo), prioridades nacionais erradas, etc. Também não nos podemos pronunciar, democraticamente, enquanto colectividades. E, todavia, são cada vez mais sentidas as necessidades de articulação supramunicipal, por exemplo, nos eventos culturais, nos investimentos municipais, etc. Estes territórios são também os mais propícios à contratualização de competências à sociedade civil, a uma participação cidadã mais intensa, a novas formas de exercício dos poderes do Estado, na Sociedade em Rede ou da Informação em que vivemos, a novas formas de equacionar e implementar as políticas públicas.
Em Portugal estes dois níveis - regional e supramunicipal são ocupados de forma caótica pelo poder central e, menos, pelo poder local. O facto limita o exercício do princípio da subsidiariedade europeu. Ou seja, em Portugal, tudo o que não pode ser resolvido ao nível do concelho ou da freguesia tem de ser (mal) resolvido ao nível central.
Acreditamos que o problema passa pelas elites portuguesas e pela concepção provinciana e retrógrada que estas têm do poder político. Do despotismo iluminado de Pombal passamos ao despotismo apagado, intercalado de eleições, do Portugal pós 25 de Abril. Pelo caminho tivemos, entre outras, a personagem sinistra de Santa Comba Dão.
Nestes trinta e cinco anos o País não se livrou da cultura da cunha. Pelo contrário, democratizou-a. Em simultâneo, do ponto de vista organizativo desconstrói-se diariamente. Na produção promovem-se hierarquias retóricas, destituídas de sentido, e, no seio das ditas, promovem-se os incompetentes. O País não se livrou dos jogos de influência, da areia lançada para os olhos, dos 'chico-espertos', das sociedades secretas, dos interesses (também corporativos), etc., sendo que ganhou novas formas de caciquismo. Na aldeia global, as lideranças partidárias portuguesas constituem os caciques mais visíveis do País na actualidade. Parolas, vivendo em Cascais, Lisboa, ou arredores, reduziram os deputados a funcionários partidários e converteram os espaços entre eleições em ditaduras de maioria, com muitos soundbites. Quanto aos deputados, funcionários partidários, a última coisa que desejam é sujeitar-se a uma verdadeira eleição (nominal?). Estão bem como estão. Não nos querem representar, a nós eleitores. Preferem, comodamente, representar as respectivas lideranças.
(continua)

5 de junho de 2009

Eleições para o Parlamento Europeu, para a Assembleia da República e para as autárquicas - três juntas podem não ser seis bois (1)

1. Trinta e cinco anos após…
Trinta e cinco anos são passados desde a instauração da Democracia em Portugal. Trinta e cinco anos antes de 1974 estávamos em 1939. O mundo assistia à invasão da Polónia pelas tropas de Hitler, invasão que deu início ao maior conflito armado da história da humanidade. Do conflito surgiu uma nova ordem mundial e iniciou-se o processo de globalização, que hoje vivemos, processo que se acentuou com o fim da guerra-fria, na década de 90 do século passado.
O mundo e Portugal mudaram, imenso. O País saiu, em 1974, das “cavernas” e ainda não se adaptou ao modo de vida que a União Europeia lhe proporcionou. Grosso modo, consumimos melhor do que produzimos. Em simultâneo, o mundo exige de nós uma sociedade que durante muitos anos não pudemos ser e ainda não somos. Encantados com o consumo não cultivamos nem memória colectiva, nem outro tipo de relações com o próximo. Projectamos mal as nossas identidades: locais, regionais, nacionais, europeias, lusófonas. De costas para o futuro observamos o dito futuro quando este já é presente, ou mesmo passado, um fado que parece não estar nas nossas mãos.
O dinheiro enriqueceu-nos mais o bolso do que a cabeça. Culturalmente continuamos muito parolos, pouco cosmopolitas, sendo que temos vergonha do que fomos (e que ainda nos marca) e compreendemos e reproduzimos mal os modelos de vivência que importamos da Europa. Ou seja, ainda recalcamos a nossa identidade de País, que associamos à miséria de outros tempos, em nome de uma identidade mais moderna, mais rica em bens de consumo, que a União Europeia (U.E.) nos trouxe e que compreendemos mal. Como o entendimento é curto, comportamo-nos como autênticos papalvos nas várias facetas da vida social. Por exemplo, nas Obras Públicas a coisa tem é que ser grande. É mais importante ser grande do que útil, porque o importante é dar nas vistas. Dar nas vistas e também dar dinheiro dos contribuintes aos interesses: a maior ponte da Europa, o maior lago artificial da Europa, o maior aeroporto ?!.., etc. Tudo isto num País que, para muitos dos interesses que o tolhem, é, convenientemente, demasiado pequeno para ter regiões. Areia lançada para os olhos. Portugal é uma grande nação da Europa. Geograficamente, não é um todo homogéneo, tem unidades regionais, no seu território, de dimensão semelhante às regiões de outros países da U.E. Acresce que o pequeno, especialmente em Portugal, é bonito, pode ser inovador, cosmopolita, competitivo, coeso, socialmente útil, numa palavra, democrático!...
(continua)

4 de junho de 2009

Rebatismo* e crisma

Para dar a volta, ENZIMA.

O nosso blog tem (tinha) um nome muito chocho. Muito “cota”. Temos que fabricar uma melhor designação. Fazer outro baptismo. Sem ser preciso consultar o Luís Afonso, que tem mais que fazer. Ora as iniciativas que a APRIL desenvolveu 1987 e 2007 – incluindo as que não deram certo – revelam que foram sustentadas por um “caldo enzimático”, que exigia que nunca fosse servida “comida requentada” ou de dieta, seguida de sobremesa espartana. Não muitos comensais à mesa, é certo mas encheram bem a barriga. E por vezes, até se riam.

Ponderando assim a sua anterior estória, resultou um diagnóstico: “Seria vocação da APRIL intervir no espaço social como se fosse uma enzima”. (Nuno Grande)

E assim fica o blog crismado:

ENZIMA

Enzima será com certeza mais um objectivo a atingir, do que uma realidade apta à partida. Lá chegaremos. E se não chegarmos, bem tentámos. Podem crer que bem gostaremos de ter tentado.

[Enzima (Química – Enciclopédia Focus) - Fermentos catalizadores específicos que ocorrem em células e tecidos vivos e permitem a realização da maior parte das reacções químicas no organismo, sem elas próprias serem consumidas. As enzimas catalizam reacções de formação ou destruição de compostos químicos. Todas as enzimas na forma pura são proteínas.]

Rui Oliveira

* Rebatismo = rebaptismo de acordo com o acordo ortográfico de 1990.

26 de março de 2008

CADERNO A4 – Comemoração, com licença das Águas do Porto

No passado dia 4, paguei a factura trimestral das Águas do Porto – Empresa Municipal (AdP-EM)
No momento em que escrevo estas linhas, 22 de Março, é Dia Mundial da Água.
Faço uma comemoração pessoal: há água no planeta, ainda. Desejo-lhe, à água, muitas décadas de vida, e com boa saúde. A sua vida é a vida do planeta, tal como o conhecemos hoje. Se calhar, à custa da água, estamos a comemorar a vida.
Tomo um golo de whisky (não tenho champanhe à mão) à saúde da água. Mas acho este agradável acto um bocado limitado: porque não tentar que ela, a água arranje rapidamente mais amigos? E que os amigos que já tem, não sirvam só, servindo-se e servindo-nos, mas que se tornem agentes empenhados e activos na defesa da sua vida (da água, mais uma vez) no médio- longo prazo.
“Águas do Porto – EM”. Reparemos no plural escolhido: uma empresa municipal abrangente está certamente vocacionada para se dedicar às várias águas do Porto. Às limpas (captação, tratamento e distribuição) às sujas (saneamento básico, com algum tratamento); à dos ribeiros encanados e a céu aberto (pelo menos, em projecto); e também espero que não deixe de se responsabilizar pelas águas subterrâneas.
É preciso contrariar as precipitações da construção urbana, feita, em casos exemplares, à custa das toalhas freáticas subjacentes. Estas contribuíram, em muitos aspectos, para a consolidação da ocupação humana que deu origem à cidade.
Não há parque de estacionamento subterrâneo (Casa da Música), nem armazém de reservas (Museu de Serralves), que justifique o esgotamento de “lençóis” de água existentes naqueles locais. O plano de poupança da água tratada que a AdP patrocinou, agradecerá: menos água de rega será consumida e o sistema vegetal da cidade, público e privado, também fica grato.
Como é que “Águas do Porto – EM” pode ajudar neste caso das águas subterrâneas? Tem o poder suficiente para tal: o do licenciamento. Arrogar-se o direito de não passar as licenças sem que estejam respeitados os condicionalismos da protecção dos lençóis freáticos - a profundidade a que estes se encontram deverá limitar a escavação.
Esta disposição não ficou integrada na versão final da última revisão do PDM, provavelmente por distracção…
Esperemos que as intervenções da AdP-EM (e dos cidadãos) evitem que os desatinos da Casa da Música e de Serralves se repitam no Bolhão…

RO, cliente da AdP-EM
Porto, 22 Março 2008

PS. Consultando o dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora 2003: “bolhão: borbotão de água ou de outro líquido”.

17 de março de 2008

Caderno A4 - Perplexidades

Já tive 16 anos.
Nessa altura, várias décadas atrás, estava eu a terminar o 7º ano do liceu, vestíbulo de acesso à Universidade.
Entre as diversas disciplinas, uma havia que me deixava perplexo algumas vezes e confuso outras. Não era matemática, não: tinha o precioso título de “Organização Política e Administrativa da Nação”.
Nela se definia Portugal como sendo um estado corporativo. Eu nunca percebi bem esta coisa de ser o país em que vivia um estado corporativo.
Mas havia de facto duas câmaras: a Assembleia Nacional (por acaso, só com deputados do mesmo partido, mas que fazer pois só eles mereciam o prémio do voto…), e a Câmara Corporativa, onde se manifestavam e eram recolhidas as posições das corporações agrupadas em grémios dos diversos sectores da economia; e os Sindicatos ditos nacionais.
Coisa curiosa, para mim, nessa altura: a Assembleia Nacional existia mas o produtor das leis era o governo, e este delegava essa responsabilidade no chefe do governo, cujo nome nem menciono.
Ou seja, nunca senti as corporações a funcionar – elas não tinham visibilidade no meu quotidiano – o que alimentava a minha perplexidade.
Hoje enfrento outro dilema: vejo, oiço e leio as corporações a funcionar com o vigor que a democracia entretanto lhes conferiu – mas o Estado já não se designa como corporativo, mas sim democrático.
Desta vez, as corporações defendem vivamente os seus privilégios – direitos adquiridos, creio que agora se diz assim.
Trinta anos de democracia foi então o tempo de maturação necessário para lhes serem outorgados direitos e aprenderem a fazer uso deles.
Mas tal como no passado, persistem no meu espírito dúvidas: a soma dos direitos adquiridos pelas corporações dá como resultado final uma maior e melhor democracia? Dessa soma emerge um modelo de desenvolvimento sustentável mais equitativo, com melhor distribuição da “riqueza”, e portador do necessário up-grade da população activa ou em vias de o ser?
A conjunção das acções das corporações corresponde a uma articulada estratégia para concretizar as reformas de que o país precisa – desde a “máquina” administrativa pública até à “máquina” produtiva pública, privada e público-privada?
Se sim, onde estão os sinais? Quais são as propostas alternativas?
Se não, para que servem então as corporações? Para resistir às reformas e para chamar seus os direitos sustentados pelo erário público?

RO – antigo aluno do Liceu Pedro Nunes
Porto, 10 de Março de 2008

29 de janeiro de 2008

imolações modernas - texto provisório

Só espero que os clamores dos mais barulhentos - sempre os primeiros a aparecer, mas nem por isso os mais razoáveis - não se atravessem no que continua a ser necessário fazer...
Só espero que o calor dos que foram perdendo privilégios não dilate o espaço da exigência e do rigor que essas medidas continuam a precisar...
Só espero que o ardor de líricos bem falantes e mal dizentes não faça arder as medidas precisas para que continue a existir apoio a quem precisa...
Desejo que as novas ligações (!) não desfaçam as correias que ajudaram a desbravar campos onde mais ninguém quis entrar...
O que o ex-Ministro Correia de Campos fez, ou tentou fazer, não é fácil. Só quem se lembra do Portugal profundo pode perceber a dificuldade de por em prática medidas que vão contra lugares comuns e "tradições", interesses instalados e interesses com vontade de se instalarem.
Houve modos das manifestações de rua que me remeteram para uma idade média serôdia: encabeçadas por autarcas voluntaristas e nada cosmopolitas, amparadas por uma comunicação social que vive da alienação, da demagogia e do sensacionalismo (nada sofisticado), acolitadas por vozes que estão sempre acima de qualquer medida terrena e, portanto, podem sempre falar do céu na terra e, decerto, bem patrocinadas por quem vai perdendo privilégios simbólicos ou materiais.
Nem sempre as vozes de .... não chegam ao céu. Ou, então, quem as ouve (já) está no limbo (desactualizado) que precede a descida ao inferno da impossibilidade de levar políticas de fundo até ao fim! Irão vender a alma ao diabo da aproximação das próximas legislativas, de uma co-habitação "conveniente" a qualquer custo com o PR?
O ex-Ministro Correia de Campos deu a cara à fogueira esquecendo-se, de um certo modo, do seu inegável gosto em ser Ministro.
ZMM

2 de janeiro de 2008

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Um ano bom para todos e votos de que estejamos sempre em cima do acontecimento.

ZMM

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